segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Serra da Piedade

Olhamos e não vemos, há três dias está coberta de nuvens. Queremos subir, mas esperamos que a cortina de nuvens se abra. E não abre. E cá em baixo, no Asilo S. Luís, o sol brilha. E nos dispomos a subir a serra para chegar na Piedade.
Atravessamos a neblina úmida e fria para alcançar o topo da serra. Ao povo de Deus, no deserto do Sinai, Deus se manifestava na nuvem. A nuvem era sinal da presença de Deus. A nuvem da fé, do saber e do não saber, a nuvem de tantos dias encobertos, a nuvem que revela e esconde. E observamos através da neblina, o ambiente que está perto. “Agora vemos de maneira confusa, como num espelho, mas depois veremos face a face”. (1Cor13,12) O peregrino precisa de humildade para se deixar guiar. Somos peregrinos. O que nos move? O desejo de luz, de amor, de vida plena. O coração anseia, o ser deseja mais ser. A beleza, a bondade e a verdade nos atraem. Caminhamos na fé. Somos atraídos pelo mistério.
A subida da serra é um convite ao desprendimento. Alguns minutos depois do portão, (podemos chamá-lo ‘Porta do Peregrino’) a mata fechada abandona a estrada e nos deixa na serra despida, no meio de árvores retorcidas, vegetação rasteira e pedras rudes, enrugadas da chuva e dos ventos. A serra é forte, sóbria, imponente, desafiadora, desprendida, serena, bela. Ao longo da subida, para acentuar mais o caminho do desprendimento e da entrega, encontramos a via sacra, os passos de Jesus na crueza do caminho. Caminho que é de amor, amor belo, verdadeiro e bom.
E, assim, nos aproximamos do topo, estrada no meio do minério, terra escura, esculturas de pedra erguidas para o céu.
Imersos na nuvem, mantemos a visão por perto. Dirigimo-nos à ermida de Nossa Senhora da Piedade. No altar central, está a Mãe com o Filho no colo, estendido e morto. Mãe e Filho, ela de olhos abertos de aflição, expressão de dor; Ele, rosto sereno, corpo ensanguentado.
E como não ver compaixão, piedade, ternura, misericórdia, proteção, mesmo na aflição e angústia? Grande dor, imenso amor. Na escultura de mestre Aleijadinho, em cores agressivas, o grito dos oprimidos e a ternura de Deus. Na postura da Mãe e do Filho, um encontro redentor. Se tocas meu ser, nunca mais te esquecerei, viverei contigo, farás parte de mim, salvarás a minha vida. A Mãe está sentada, suportando em seu corpo o peso da humanidade esmagada. A mão direita da Mãe segurando a mão direita do Filho; a mão esquerda do Filho caída, a chaga está aberta. “Toda a arte de primeira ordem dá testemunho a favor da encarnação. A arte é como a carne da espiritualidade”. (S. Weil) “Deus seduz-nos com os gestos do amor de Cristo, o rosto belo do ser humano”. (E. Ronchi)
E sentamos. Fazemos silêncio. “Jesus, tem compaixão de mim”,(Mc10,47) repetimos, respiramos, entramos na profundidade do nosso ser. Fazemos caminho interior. Contemplamos: olhamos, escutamos, sentimos, estamos, amamos, somos. “Deus é a beleza que cria comunhão”. Acolhemos a paz, a compaixão, a fraternidade.
E participamos na eucaristia, Palavra e Pão, a liberdade e a entrega, a profecia e a consumação, mistério da fé, alimento do peregrino, vida do peregrino, ser do peregrino. Somos invadidos pela mística da transformação. Comungamos o sonho do Reino, todo o ser criado se transforma pela ação de Deus, para a plenitude da vida em Cristo. Abraçamos a humanidade no abraço de Cristo, sendo muitos, somos um só.
Saímos da ermida e vemos bem em nossa frente o Crucificado, no meio de João e Maria. “Eis a beleza que salva o mundo”. A neblina está abrindo. E nos aproximamos. Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse a sua mãe: «Mulher, eis aí o seu filhoDepois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe.» E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa”.(Jo19,26-27) Maria e João aprendendo do amor de Jesus na cruz. Participam de sua paixão e morte, ao pé da cruz, momento alto da manifestação do amor de Deus: Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna”.(Jo3,16) “A beleza que transparece naquele crucificado revela que bela é a pessoa que ama até ao fim”.
E a nuvem se vai. O sol brilha intenso e é maravilhoso o panorama que avistamos das terras mineiras. Nosso olhar se alarga até um horizonte que nos leva e nos espalha na liberdade. Nosso ser se enche de beleza, de bondade, de verdade. Os olhos se estendem e se perdem na criação maravilhosa de Deus. Infinita beleza de Deus. Olhar que se assombra e se encanta, que toca a sensibilidade e a emoção, que gera a paixão pela vida, a capacidade de amar.
Bebemos a última água que sobrou da subida e vamos descendo até à Igreja Nova das Romarias, uma grande tenda, encaixada nos rochedos, igreja simples que sai do chão, na encarnação e se projeta para o alto, na ressurreição. O Evangelho de Lucas, o Evangelho das mulheres e dos pobres, em mosaicos de traços simples, como a sobriedade e a criatividade da serra. E, entre outras vozes, escutamos: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso”.(Lc6,36); “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.(Lc10,21)
O caminho é dos peregrinos. O Evangelho é dos pobres, daqueles que se abrem e se enchem de espanto diante do amor de Deus belo, verdadeiro e bom. “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”.(Jo12,32) Verdade infinita e tão bela que desperta nosso desejo de plenitude, de evangelização, de anúncio do Senhor a todos os horizontes. “Ide e anunciai”.(Mc16,15)
A descida é serena e feliz. O sol aquece o chão e vamos sentindo o cheiro doce da serra. Descendo vamos mergulhando na nossa realidade, fortalecidos, iluminados, livres, pela experiência maravilhosa do amor de Deus. A serra concentra a beleza e o amor, a serenidade, a força, a simplicidade, a confiança, o abandono no ser de Deus. A pessoa humana sai de si mesma para se perder no Outro, para encontrar a vida plena. Sair de si mesmo, perder-se a si mesmo, ser êxtase, é condição de vida plena.
Contemplar a Serra da Piedade nos faz pobres, abertos, seduzidos, enamorados de um além maior, um amor maior e uma beleza maior; transportados para fora de nós, vemos a realidade do novo céu e da nova terra, a comunhão da vida plena. “Para a pessoa de Deus, a beleza nunca é um fim; é transição, passagem, porta”.  “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei o Reino que o Pai vos preparou. Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente e cuidastes de mim; na prisão e fostes visitar-me”.(Mt25,34-36)


1.Peregrino ou turista? O turista cultiva a espiritualidade da bóia: mantém-se sempre na superfície, por fora, não sabe do mistério da vida. O peregrino coloca os pés no chão e caminha dentro da realidade, compromete-se, faz processo, deixa-se transformar, abre-se ao mistério, mistério de si mesmo, mistério do outro, mistério da Criação, mistério de Deus. Como você se sente: peregrino ou turista? “A verdade revela-se aos peregrinos”.

2.A pessoa humana sai de si mesma pela beleza, acolhe o outro pela beleza, se apaixona pela beleza, beleza do amor, beleza que é bondade e verdade. Descubra a importância da beleza em sua vida. Deus nos atrai, nos seduz, nos conquista com sua beleza, bondade e verdade.

3.Faça um tempo de oração. Repita em silêncio, respirando “Jesus, tem compaixão de mim”.

4.Contemple o “caminho do peregrino”. Que momentos / aspetos / elementos você encontra mais significativos no “caminho do peregrino”?

5.Como (que valores/que ações) você escolhe viver para ser peregrino no seguimento de Jesus?



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