quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Assembleia Geral da Comunidade 2014

Carta à Família Shalom

Ao final da Assembleia Geral 2014, nós da Comunidade Shalom, dirigimo-nos a vocês, irmãs e irmãos de todas as formas de pertença da Família Shalom, num espírito de comunhão, abertura e disponibilidade, partilhando nossa vivência, nossas conclusões e nossos anseios e pedindo o vosso apoio e vossa ajuda.
Agradecemos a sintonia orante e as diversas manifestações solidárias que de vocês recebemos durante esta Assembleia.
No retiro que alimentou os primeiros dias do nosso encontro, D. Aloísio Pena Vitral, bispo de Teófilo Otôni, Minas Gerais, esteve entre nós como brisa suave da presença do Espírito de Deus, confirmando nosso caminho e nossa missão e despertando em nossos corações um olhar de esperança. Escutar as aspirações profundas do ser humano; armar a tenda de acampamento em acampamento, erguendo altares; não deixar cair a profecia, mas cultivá-la na leveza e itinerância de uma atitude abraâmica; não engarrafar o Espírito; ser padres do deserto nas realidades de hoje; deixar-se fascinar pelo absoluto; acolher nossas feridas como saudade de Deus e carregar nossa solidão interior como caminho para sermos solidários; ajudar as pessoas a irem para elas mesmas e a resgatarem o que elas tem de melhor e mais profundo; viver este tempo de “exílio da Babilónia” sem nos rendermos aos deuses pagãos e sem querermos reeditar o passado mas, como os profetas, reler o passado para descobrir como ser a agir no hoje; cultivar a ética do cuidado; desobstruir as fontes; continuar permitindo que cada um seja o que é; ir o mais longe que pudermos e depois… ajoelhar. Estas foram algumas das luzes inspiradoras com que o Espírito nos desafiou durante este retiro.
Na sequência da Assembleia confirmados e desafiados por este espírito, sintetizamos nosso trabalho em quatro prioridades que partilhamos com vocês:
Unificação das Comunidades em Portugal: No sentido de potencializar uma arquitetura de comunhão a partir da Comunidade Shalom e que seja fonte inspiradora do mesmo espírito para toda a família Shalom, apostamos numa Comunidade unificada em Portugal, como presença itinerante entre as várias realidades, e tendo como apoio as casas de Oeiras e Braga.
Evangelização da juventude: na fidelidade ao nosso carisma de evangelização da juventude, numa atitude de abertura aos sinais dos tempos e aos novos desafios da realidade da juventude e à luz das intuições originais que vem das fontes do Movimento Encontros de Jovens Shalom, queremos dinamizar em cada realidade, um processo de reflexão sobre a evangelização da juventude e ousar experiências que abram novos horizontes nesta dimensão.
Formação: na formação vemos o futuro da Comunidade: priorizar a formação dos candidatos à Comunidade Shalom potencializando em todas as casas e especialmente na Casa de Formação, um espírito favorável.
Vocacionalizar a Comunidade: enriquecendo a pastoral vocacional com a energia e os meios ao nosso alcance e criando condições favoráveis para jovens que sintam algum apelo vocacional possam fazer experiências temporárias em alguma das nossas casas.
Em 2017, celebramos cinquenta anos do Movimento Encontros de Jovens Shalom e é para a preparação e celebração desse Jubileu que queremos a todos convidar e pedir de todos os membros da Família Shalom, nas suas diversas formas de pertença, um espírito de oração, entusiasmo e abertura, para cultivar, alimentar e celebrar a nossa identidade como jeito próprio de ser e estar na Igreja e no mundo.
Confirmados na nossa missão, reanimados na esperança, e conscientes da nossa fragilidade como “uma pequena semente de libertação” no meio do mundo, partilhamos com todos vocês a nossa alegria e, na humildade, pedimos o vosso apoio e vossa ajuda fraterna e solidária.

Fortaleza, 27 de julho de 2014
Comunidade Shalom

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Serra da Piedade

Olhamos e não vemos, há três dias está coberta de nuvens. Queremos subir, mas esperamos que a cortina de nuvens se abra. E não abre. E cá em baixo, no Asilo S. Luís, o sol brilha. E nos dispomos a subir a serra para chegar na Piedade.
Atravessamos a neblina úmida e fria para alcançar o topo da serra. Ao povo de Deus, no deserto do Sinai, Deus se manifestava na nuvem. A nuvem era sinal da presença de Deus. A nuvem da fé, do saber e do não saber, a nuvem de tantos dias encobertos, a nuvem que revela e esconde. E observamos através da neblina, o ambiente que está perto. “Agora vemos de maneira confusa, como num espelho, mas depois veremos face a face”. (1Cor13,12) O peregrino precisa de humildade para se deixar guiar. Somos peregrinos. O que nos move? O desejo de luz, de amor, de vida plena. O coração anseia, o ser deseja mais ser. A beleza, a bondade e a verdade nos atraem. Caminhamos na fé. Somos atraídos pelo mistério.
A subida da serra é um convite ao desprendimento. Alguns minutos depois do portão, (podemos chamá-lo ‘Porta do Peregrino’) a mata fechada abandona a estrada e nos deixa na serra despida, no meio de árvores retorcidas, vegetação rasteira e pedras rudes, enrugadas da chuva e dos ventos. A serra é forte, sóbria, imponente, desafiadora, desprendida, serena, bela. Ao longo da subida, para acentuar mais o caminho do desprendimento e da entrega, encontramos a via sacra, os passos de Jesus na crueza do caminho. Caminho que é de amor, amor belo, verdadeiro e bom.
E, assim, nos aproximamos do topo, estrada no meio do minério, terra escura, esculturas de pedra erguidas para o céu.
Imersos na nuvem, mantemos a visão por perto. Dirigimo-nos à ermida de Nossa Senhora da Piedade. No altar central, está a Mãe com o Filho no colo, estendido e morto. Mãe e Filho, ela de olhos abertos de aflição, expressão de dor; Ele, rosto sereno, corpo ensanguentado.
E como não ver compaixão, piedade, ternura, misericórdia, proteção, mesmo na aflição e angústia? Grande dor, imenso amor. Na escultura de mestre Aleijadinho, em cores agressivas, o grito dos oprimidos e a ternura de Deus. Na postura da Mãe e do Filho, um encontro redentor. Se tocas meu ser, nunca mais te esquecerei, viverei contigo, farás parte de mim, salvarás a minha vida. A Mãe está sentada, suportando em seu corpo o peso da humanidade esmagada. A mão direita da Mãe segurando a mão direita do Filho; a mão esquerda do Filho caída, a chaga está aberta. “Toda a arte de primeira ordem dá testemunho a favor da encarnação. A arte é como a carne da espiritualidade”. (S. Weil) “Deus seduz-nos com os gestos do amor de Cristo, o rosto belo do ser humano”. (E. Ronchi)
E sentamos. Fazemos silêncio. “Jesus, tem compaixão de mim”,(Mc10,47) repetimos, respiramos, entramos na profundidade do nosso ser. Fazemos caminho interior. Contemplamos: olhamos, escutamos, sentimos, estamos, amamos, somos. “Deus é a beleza que cria comunhão”. Acolhemos a paz, a compaixão, a fraternidade.
E participamos na eucaristia, Palavra e Pão, a liberdade e a entrega, a profecia e a consumação, mistério da fé, alimento do peregrino, vida do peregrino, ser do peregrino. Somos invadidos pela mística da transformação. Comungamos o sonho do Reino, todo o ser criado se transforma pela ação de Deus, para a plenitude da vida em Cristo. Abraçamos a humanidade no abraço de Cristo, sendo muitos, somos um só.
Saímos da ermida e vemos bem em nossa frente o Crucificado, no meio de João e Maria. “Eis a beleza que salva o mundo”. A neblina está abrindo. E nos aproximamos. Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse a sua mãe: «Mulher, eis aí o seu filhoDepois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe.» E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa”.(Jo19,26-27) Maria e João aprendendo do amor de Jesus na cruz. Participam de sua paixão e morte, ao pé da cruz, momento alto da manifestação do amor de Deus: Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna”.(Jo3,16) “A beleza que transparece naquele crucificado revela que bela é a pessoa que ama até ao fim”.
E a nuvem se vai. O sol brilha intenso e é maravilhoso o panorama que avistamos das terras mineiras. Nosso olhar se alarga até um horizonte que nos leva e nos espalha na liberdade. Nosso ser se enche de beleza, de bondade, de verdade. Os olhos se estendem e se perdem na criação maravilhosa de Deus. Infinita beleza de Deus. Olhar que se assombra e se encanta, que toca a sensibilidade e a emoção, que gera a paixão pela vida, a capacidade de amar.
Bebemos a última água que sobrou da subida e vamos descendo até à Igreja Nova das Romarias, uma grande tenda, encaixada nos rochedos, igreja simples que sai do chão, na encarnação e se projeta para o alto, na ressurreição. O Evangelho de Lucas, o Evangelho das mulheres e dos pobres, em mosaicos de traços simples, como a sobriedade e a criatividade da serra. E, entre outras vozes, escutamos: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso”.(Lc6,36); “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.(Lc10,21)
O caminho é dos peregrinos. O Evangelho é dos pobres, daqueles que se abrem e se enchem de espanto diante do amor de Deus belo, verdadeiro e bom. “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”.(Jo12,32) Verdade infinita e tão bela que desperta nosso desejo de plenitude, de evangelização, de anúncio do Senhor a todos os horizontes. “Ide e anunciai”.(Mc16,15)
A descida é serena e feliz. O sol aquece o chão e vamos sentindo o cheiro doce da serra. Descendo vamos mergulhando na nossa realidade, fortalecidos, iluminados, livres, pela experiência maravilhosa do amor de Deus. A serra concentra a beleza e o amor, a serenidade, a força, a simplicidade, a confiança, o abandono no ser de Deus. A pessoa humana sai de si mesma para se perder no Outro, para encontrar a vida plena. Sair de si mesmo, perder-se a si mesmo, ser êxtase, é condição de vida plena.
Contemplar a Serra da Piedade nos faz pobres, abertos, seduzidos, enamorados de um além maior, um amor maior e uma beleza maior; transportados para fora de nós, vemos a realidade do novo céu e da nova terra, a comunhão da vida plena. “Para a pessoa de Deus, a beleza nunca é um fim; é transição, passagem, porta”.  “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei o Reino que o Pai vos preparou. Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente e cuidastes de mim; na prisão e fostes visitar-me”.(Mt25,34-36)


1.Peregrino ou turista? O turista cultiva a espiritualidade da bóia: mantém-se sempre na superfície, por fora, não sabe do mistério da vida. O peregrino coloca os pés no chão e caminha dentro da realidade, compromete-se, faz processo, deixa-se transformar, abre-se ao mistério, mistério de si mesmo, mistério do outro, mistério da Criação, mistério de Deus. Como você se sente: peregrino ou turista? “A verdade revela-se aos peregrinos”.

2.A pessoa humana sai de si mesma pela beleza, acolhe o outro pela beleza, se apaixona pela beleza, beleza do amor, beleza que é bondade e verdade. Descubra a importância da beleza em sua vida. Deus nos atrai, nos seduz, nos conquista com sua beleza, bondade e verdade.

3.Faça um tempo de oração. Repita em silêncio, respirando “Jesus, tem compaixão de mim”.

4.Contemple o “caminho do peregrino”. Que momentos / aspetos / elementos você encontra mais significativos no “caminho do peregrino”?

5.Como (que valores/que ações) você escolhe viver para ser peregrino no seguimento de Jesus?