Olhamos e não vemos, há três dias está
coberta de nuvens. Queremos subir, mas esperamos que a cortina de nuvens se
abra. E não abre. E cá em baixo, no Asilo S. Luís, o sol brilha. E nos dispomos
a subir a serra para chegar na Piedade.
Atravessamos a neblina úmida e fria para
alcançar o topo da serra. Ao povo de Deus, no deserto do Sinai, Deus se
manifestava na nuvem. A nuvem era sinal da presença de Deus. A nuvem da fé, do
saber e do não saber, a nuvem de tantos dias encobertos, a nuvem que revela e
esconde. E observamos através da neblina, o ambiente que está perto. “Agora
vemos de maneira confusa, como num espelho, mas depois veremos face a face”.
(1Cor13,12) O peregrino precisa de humildade para se deixar guiar. Somos
peregrinos. O que nos move? O desejo de luz, de amor, de vida plena. O coração
anseia, o ser deseja mais ser. A beleza, a bondade e a verdade nos atraem. Caminhamos
na fé. Somos atraídos pelo mistério.
A subida da serra é um convite ao
desprendimento. Alguns minutos depois do portão, (podemos chamá-lo ‘Porta do
Peregrino’) a mata fechada abandona a estrada e nos deixa na serra despida, no
meio de árvores retorcidas, vegetação rasteira e pedras rudes, enrugadas da
chuva e dos ventos. A serra é forte, sóbria, imponente, desafiadora,
desprendida, serena, bela. Ao longo da subida, para acentuar mais o caminho do
desprendimento e da entrega, encontramos a via sacra, os passos de Jesus na
crueza do caminho. Caminho que é de amor, amor belo, verdadeiro e bom.
E, assim, nos aproximamos do topo,
estrada no meio do minério, terra escura, esculturas de pedra erguidas para o
céu.
Imersos na nuvem, mantemos a visão por
perto. Dirigimo-nos à ermida de Nossa Senhora da Piedade. No altar central,
está a Mãe com o Filho no colo, estendido e morto. Mãe e Filho, ela de olhos
abertos de aflição, expressão de dor; Ele, rosto sereno, corpo ensanguentado.
E como não ver compaixão, piedade,
ternura, misericórdia, proteção, mesmo na aflição e angústia? Grande dor,
imenso amor. Na escultura de mestre Aleijadinho, em cores agressivas, o grito
dos oprimidos e a ternura de Deus. Na postura da Mãe e do Filho, um encontro
redentor. Se tocas meu ser, nunca mais te esquecerei, viverei contigo, farás
parte de mim, salvarás a minha vida. A Mãe está sentada, suportando em seu
corpo o peso da humanidade esmagada. A mão direita da Mãe segurando a mão
direita do Filho; a mão esquerda do Filho caída, a chaga está aberta. “Toda a
arte de primeira ordem dá testemunho a favor da encarnação. A arte é como a
carne da espiritualidade”. (S. Weil) “Deus seduz-nos com os gestos do amor de
Cristo, o rosto belo do ser humano”. (E. Ronchi)
E sentamos. Fazemos silêncio. “Jesus, tem
compaixão de mim”,(Mc10,47) repetimos, respiramos, entramos na profundidade do
nosso ser. Fazemos caminho interior. Contemplamos: olhamos, escutamos,
sentimos, estamos, amamos, somos. “Deus é a beleza que cria comunhão”. Acolhemos
a paz, a compaixão, a fraternidade.
E participamos na eucaristia, Palavra e
Pão, a liberdade e a entrega, a profecia e a consumação, mistério da fé,
alimento do peregrino, vida do peregrino, ser do peregrino. Somos invadidos
pela mística da transformação. Comungamos o sonho do Reino, todo o ser criado
se transforma pela ação de Deus, para a plenitude da vida em Cristo. Abraçamos
a humanidade no abraço de Cristo, sendo muitos, somos um só.
Saímos da ermida e vemos bem em nossa
frente o Crucificado, no meio de João e Maria. “Eis a beleza que salva o
mundo”. A neblina está abrindo. E nos aproximamos. “Jesus viu
sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse a sua mãe: «Mulher, eis aí o seu filho.» Depois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe.» E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa”.(Jo19,26-27) Maria e João aprendendo do amor
de Jesus na cruz. Participam de sua paixão e morte, ao pé da cruz, momento alto
da manifestação do amor de Deus: “Pois Deus
amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna”.(Jo3,16) “A beleza que transparece naquele
crucificado revela que bela é a pessoa que ama até ao fim”.
E a nuvem se vai. O sol brilha intenso e
é maravilhoso o panorama que avistamos das terras mineiras. Nosso olhar se
alarga até um horizonte que nos leva e nos espalha na liberdade. Nosso ser se
enche de beleza, de bondade, de verdade. Os olhos se estendem e se perdem na
criação maravilhosa de Deus. Infinita beleza de Deus. Olhar que se assombra e
se encanta, que toca a sensibilidade e a emoção, que gera a paixão pela vida, a
capacidade de amar.
Bebemos a última água que sobrou da
subida e vamos descendo até à Igreja Nova das Romarias, uma grande tenda,
encaixada nos rochedos, igreja simples que sai do chão, na encarnação e se
projeta para o alto, na ressurreição. O Evangelho de Lucas, o Evangelho das
mulheres e dos pobres, em mosaicos de traços simples, como a sobriedade e a
criatividade da serra. E, entre outras vozes, escutamos: “Sede misericordiosos
como vosso Pai do céu é misericordioso”.(Lc6,36); “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.(Lc10,21)
O caminho é dos peregrinos. O Evangelho
é dos pobres, daqueles que se abrem e se enchem de espanto diante do amor de
Deus belo, verdadeiro e bom. “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos
a mim”.(Jo12,32) Verdade infinita e tão bela que desperta nosso desejo de
plenitude, de evangelização, de anúncio do Senhor a todos os horizontes. “Ide e
anunciai”.(Mc16,15)
A descida é serena e feliz. O sol aquece
o chão e vamos sentindo o cheiro doce da serra. Descendo vamos mergulhando na
nossa realidade, fortalecidos, iluminados, livres, pela experiência maravilhosa
do amor de Deus. A serra concentra a beleza e o amor, a serenidade, a força, a
simplicidade, a confiança, o abandono no ser de Deus. A pessoa humana sai de si
mesma para se perder no Outro, para encontrar a vida plena. Sair de si mesmo,
perder-se a si mesmo, ser êxtase, é condição de vida plena.
Contemplar a Serra da Piedade nos faz
pobres, abertos, seduzidos, enamorados de um além maior, um amor maior e uma
beleza maior; transportados para fora de nós, vemos a realidade do novo céu e
da nova terra, a comunhão da vida plena. “Para a pessoa de Deus, a beleza nunca
é um fim; é transição, passagem, porta”. “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei o Reino
que o Pai vos preparou. Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me
destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; estava nu e me
vestistes; doente e cuidastes de mim; na prisão e fostes
visitar-me”.(Mt25,34-36)
1.Peregrino ou turista? O turista
cultiva a espiritualidade da bóia: mantém-se sempre na superfície, por fora,
não sabe do mistério da vida. O peregrino coloca os pés no chão e caminha
dentro da realidade, compromete-se, faz processo, deixa-se transformar, abre-se
ao mistério, mistério de si mesmo, mistério do outro, mistério da Criação,
mistério de Deus. Como você se sente: peregrino ou turista? “A verdade
revela-se aos peregrinos”.
2.A
pessoa humana sai de si mesma pela beleza, acolhe o outro pela beleza, se
apaixona pela beleza, beleza do amor, beleza que é bondade e verdade. Descubra
a importância da beleza em sua vida. Deus nos atrai, nos seduz, nos conquista
com sua beleza, bondade e verdade.
3.Faça
um tempo de oração. Repita em silêncio, respirando “Jesus, tem compaixão de
mim”.
4.Contemple
o “caminho do peregrino”. Que momentos / aspetos / elementos você encontra mais
significativos no “caminho do peregrino”?
5.Como
(que valores/que ações) você escolhe viver para ser peregrino no seguimento de
Jesus?